segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sobre a Psicologia Humanista

A psicologia humanista surgiu na década de 50, ganhando força nos anos 60 e 70, como uma reação às idéias psicológicas pré-existentes - o behaviorismo e a psicanálise - embora não quisesse revisá-las ou adaptá-las, mas dar uma nova contribuição à psicologia.

As críticas ao comportamentalismo giravam em torno de sua abordagem estreita, artificial e estéril da natureza humana, que reduzia o homem à máquinas e animais propensos ao condicionamento. A divergência à psicanálise se mostrava no questionamento à ênfase no inconsciente, nas questões biológicas e eventos passados, no estudo de pessoas neuróticas e psicóticas e na compartimentalização do indivíduo.

O movimento humanista teve forte influência das filosofias existenciais e da fenomenologia. As convicções e as certezas começam a ruir no século XX, quando a razão começa a entrar em crise devido à existência da corrida armamentista e à pouca contribuição dos avanços tecnológicos na diminuição da desigualdade social no mundo. O existencialismo tem o homem como ponto de partida nos processos de reflexão e a fenomenologia, a consciência do ser sobre algo, a investigação da experiência consciente: o fenômeno. Com Heidegger, filósofo fenomenológico, há um retorno à teoria do conhecimento e das questões ontológicas. O ser e a existência do todo passa a ser a questão central.

O existencialismo fenomenológico, enquanto método apreendido pelo movimento humanista, se pauta em três questões:

- redução fenomenológica
Recurso para se chegar ao fenômeno em sua essência, considerando a sua totalidade e visando, deste modo, a incorporação de uma atitude crítica perante o cotidiano. A concordância entre a intuição, que ocorre na imediatez da vivência, e a significação se faz essencial para a aproximação da realidade observada. A busca pela essência do sintoma permite a recapitulação da realidade total, pois somente ela consente o conhecimento dos fatos.

- intencionalidade
Atribuição de sentido do fenômeno, onde a consciência e o objeto, o sujeito e o mundo estão unificados. Quando esta fusão ocorre, a totalidade é apreendida e a decisão torna-se um processo consciente e libertador. O sujeito pensante e o objeto pensado tornam-se uno. A intencionalidade só surge após a compreensão da realidade, obtida, por sua vez, pela redução fenomenológica.

- subjetividade e intersubjetividade
O encontro entre a própria subjetividade e a do outro é chamado de intersubjetividade. É ela que, através da pluralidade de constituições de vários sujeitos, dá sentido ao mundo. O acoplamento entre a intra-subjetividade e a intersubjetividade é a única forma de efetivação de uma comunicação verdadeira, que faculta a chegada à essência.

É importante frisar que a fenomenologia não visa a explicação do objeto; as coisas, sim, que quando apreendidas, se tornam um momento fenomenológico. A função de sua abordagem é permitir a elaboração de conceitos que expressem adequadamente o fenômeno que se pretende estudar. São estes conceitos que auxiliam a pessoa a como proceder no dia-a-dia, uma vez que a história só é construída à medida que as coisas recebem significados. Logo, embora a realidade exista per si, sofre ressignificação no encontro com a realidade íntima de cada um, o que a torna fluída. O processo terapêutico deve, portanto, conectar a experiência interior ao mundo da objetividade.

A grande contribuição desta nova escola pode ser vista na ênfase da experiência consciente, na crença na integralidade entre natureza e a conduta do ser humano, no livre-arbítrio, espontaneidade e poder de criação do indivíduo, e no estudo de tudo que tenha relevância para a condição humana. Somente mediante a perspectiva da totalidade, que a consciência é entendida.Esta, por sua vez, deve ser submetida à temporalidade, impedindo-a de ficar estática e desmistificando a existência de uma realidade pura. Seu valor reside na relação que estabelece entre as realidades. Experienciar o tempo presente como uma totalidade que sinaliza a integração eu-mundo é fundamental para a libertação das exigências compulsivas do passado e futuro.

A aplicação prática dos conceitos da fenomenologia existencial revelará a direção na formulação de uma nova percepção e na solução de problemas por meio de uma mudança consistente. A lógica da mudança passa por passos - partes, totalidade, consciência, intencionalidade e ação - que devem ser trabalhados na terapia.

O otimismo acerca da liberdade e do potencial humano é bastante revelador das crenças do movimento. Para atingi-los, a terapia faz uso da mais alta gama de instrumentos, desde a validação da introspecção e da intuição como fonte preciosa de informação, até a análise da literatura.

A teoria humanista tem como principais teóricos Abraham Maslow (1908-1970) e Carl Rogers (1902-1987), os maiores responsáveis pela projeção dos seus postulados no mundo. O primeiro, americano, foi considerado o pai espiritual do movimento humanista. Maslow abandona o comportamentalismo, abraçado no início de sua carreira, por passar a acreditar na tendência inata que cada pessoa traz em si para se tornar auto-realizadora. Este seria o nível mais alto da existência humana, onde a realização do potencial de cada indivíduo seria conquistada. A existência de níveis a serem satisfeitos foi proposta por ele através da hierarquia das necessidades. De acordo com Maslow, estas necessidades seriam inatas e deveriam obedecer a uma ordem de saciação, que se encontra representada na pirâmide abaixo. A grande novidade trazida por Maslow, para a psicologia, foi os estudo de pessoas, consideradas por ele, saudáveis, através dos quais formulou suas teorias.

O segundo, também americano, teve o seu trabalho pautado no valor do indivíduo desde o início. Diferentemente do seu contemporâneo, suas visões advieram do tratamento de indivíduos emocionalmente perturbados. Rogers trabalhou com um conceito semelhante ao da auto-realização de Maslow: a existência de uma única motivação avassaladora que se configura na tendência inata que cada pessoa tem de atualizar as capacidades e potenciais do eu, a tendência atualizante. Ele também defendeu a idéia de autoconceito como sendo um padrão organizado e consistente de características percebidas em cada um desde a infância. Na medida em que se acumulam novas experiências, este conceito pode ser reforçado ou ser substituído por novos. Experiências infantis podem ajudar ou prejudicar a auto-atualização, ainda que esta seja inerente ao homem, mas, de forma alguma, são podem ser consideradas determinantes. A capacidade do homem de poder alterar consciente e racionalmente seus pensamentos e comportamentos indesejáveis fornece ao presente um grande peso na formação da personalidade do indivíduo. Para ele, os indivíduos bem ajustados psicologicamente têm autoconceitos realistas, sendo a angústia psicológica advinda do impasse ou desarmonia entre o autoconceito real (o que se é de fato) e o ideal para si (o que se deseja ser). Por isso, Rogers defendia que o cliente deveria determinar o conteúdo e a direção do tratamento, uma vez que este tem dentro de si vastos recursos para o auto-entendimento e para alterar o autoconceito. O termo terapia centrada no cliente deriva desta idéia e esta é encarada apenas como um facilitador.

As principais críticas ao movimento são atribuídas ao seu escopo vago e à sua falta de cientificidade, tendo seus próprios expoentes reconhecido a sua não aceitação na filosofia da ciência. Tal fato é notado na pouca porcentagem (1%) destinada à psicologia humanista nos livros da área e, ainda assim, fazendo menção apenas à hierarquia das necessidades de Maslow e à terapia centrada na pessoa de Rogers, embora 15 % dos psicólogos atuantes no mundo tenham adotado tal linha. Outros pontos questionáveis desta teoria são a crença de que sua prática não daria suporte necessário às pessoas com distúrbios mais graves, e a confiança na formulação do autoconceito do cliente durante o seu tratamento. Muitos estudiosos, ainda, não a consideram diferenciada suficientemente da gestalt a ponto de justificar a existência de um nome próprio.

Tudo isso fez com que a psicologia humanista tenha sido considerada pelos seus próprios formuladores apenas uma experiência. Não obstante as críticas, a promoção de métodos terapêuticos que acentuam a auto-realização, a responsabilidade pessoal e a liberdade de escolha, além da consideração do contexto familiar, social e de trabalho em que a pessoa se insere, foram de suma importância na ratificação de mudanças já em curso.

No Brasil, a ditadura era uma realidade, ainda que, no mundo, houvesse grande incentivo à liberdade de escolha. Apesar dos entraves políticos, a influência humanista é sentida aqui quando há, finalmente, o processo de regulamentação da profissão e estabelecimento do curso com a lei 4119 de 27 de agosto de 1962. Neste currículo, já aparece de forma seminal a psicologia humanista.

O psicólogo Carl Rogers, conhecido internacionalmente, veio ao país – mais precisamente ao Rio de Janeiro e Recife -, para realizar workshops e difundir suas idéias. Em entrevista à revista Veja em 1977, Rogers cita os principais pontos de sua teoria e afirma, categoricamente, que a abordagem centrada na pessoa é de fácil convivência na democracia.

A grande aceitação da abordagem de Rogers, no Brasil, aconteceu principalmente nos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e na Capital Federal, onde vários centros divulgam e formam psicólogos especialistas na abordagem centrada na pessoa.

9 comentários:

  1. Foi esclarecedor.
    http://diariopolly.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Ótimo blog.
    É tão difícil hoje encontrar bom material de psicologia, seja de que abordage for. É tudo replicância enfadonha... Holy Shit, os de behaviorismo então! Vão escrever mal assim lá no inferno, isto que dá, "me diga com quem andas que te direi quem és". Quem anda com rato, acaba bebedndo água pela barra. É uma questão a se pensar: "Psicologia experimental"? Se a idéia ou conceito "alma", é o que eles chamam de rídíciulo (acredito que nem sabem o significado real do termo)porque insistem em seguir com a nomeação, se o objetivo é produzir ciênia e esta não admite o que não pode ser verificado pelo método científico. Será que a grande maioria que advoga a obsolescência da natureza humana sabem que dão força ao significante mor da "doutrina da alma". Afinal o objetivo não é sempre "trazer luz" a "mentira" de que o homeme é único no mundo, mas não seria escuridão permanecer no que significa aquilo que gera as travas, a palavra, esta que estava no principio.
    Sem dúvida, Goethe me sensuraria, eles não escrevem mal como no inferno, porque se tomarmos por exemplo Fausto, nem no destino dos condenados teriam parte.
    é de fato mesmo uma ciênciazinha "fantardiga"!
    Congratulações companheiro!

    ResponderExcluir
  3. Ótimo blog. Boas argumentações e estruturações de ideas!

    ResponderExcluir
  4. excelente blog, parabens, a forma de expor foi de uma compreensão muito boa.

    ResponderExcluir
  5. Parabéns pelo blog. Tão pouca coisa no Brasil sobre psicologia humanista, infelizmente.

    ResponderExcluir
  6. Muito bom, encontrei o que precisava para meu trabalho!

    ResponderExcluir
  7. Mt bom gostei,só faltaram as fontes.

    ResponderExcluir
  8. Coincidentemente o conteúdo é o mesmo do material que estou utilizando na faculdade. As fontes são:
    AQUINO, Ronaldo & André. Fazendo a História: a Europa e as Américas nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1986.
    BERGSON, H. A Evolução Criadora. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
    CAPRA, F. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1994.
    FADIMAN, F e FRAGER, R. Teorias da Personalidade. São Paulo: Harbra, 1986.
    FIGUEIREDO, L. C. M. Matrizes do Pensamento Psicológico. Petrópolis: Vozes, 1991.
    GIORGI, A. A Psicologia como Ciência Humana – Uma Abordagem Fenomenológica. Belo Horizonte: Interlivros, 1978.
    GREENING, T. C. Psicologia Existencial Humanista. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
    MASLOW, A. El Hombre Autorrealizado. Argentina: Kairós, 1989.

    ResponderExcluir